Monday, February 06, 2012

Das escalas de cinza.

Eram apenas uma silhueta e a minha miopia, mas isso bastou pra que as malditas pernas tremessem e o estômago entrasse em queda livre ao chão. Eram apenas alguns metros de distância e a minha insegurança, mas isso bastou pra que passássemos como dois estranhos numa coincidência esperada.

E a mulher que eu achei que era, desaparecia ali. Ali e todas as vezes que seu corpo se conjurava na minha frente. É que ele ainda exercia algum tipo de poder sobrenatural sobre mim, poder que eu negava e ridicularizava até a morte. Porque, sim, eu estava certa em o fazer: quando a razão voltava ao meu sangue - ou quando o sangue, de fato, voltava às veias -, eu sabia que não havia nada, era apenas um homem, desses que a gente encontra em qualquer esquina, mas se dizem tão especiais.

Mas tem a raiva e o rancor. Aquela pontada no coração e no ego por não ter conseguido sua posse. Posse que não pertence a mim, com a qual nunca me importei, a qual nunca desejei por nada, nem ninguém – a não ser que não me fosse permitido.

Era isso: a luta por poder. A incompatibilidade de gênios resumida a mesquinha disputa de quem sairia por cima. A ternura foi atropelada por uma busca desenfreada por um par. O cuidado foi, simplesmente, ignorado por uma urgência que, sabe-se lá porque, apareceu em nosso encontro. Me entristece saber que tal mudança é possível, que algo por ai permite tamanho desastre.

Tudo bem, a minha poesia permanece intacta. O meu lirismo e a minha dor, minhas alegrias e meu caminho. Tá tudo aqui. Com o tempo, a gente aprende que o preto e branco não existe e a grande escala de cinza que permeia nossas vidas é inevitável. Tomara que incomode mais a mim e seja indiferente pra ele. Afinal, pra todo corpo, existe uma alma e é isso que importa.

Era apenas isso e mais todos os meus sentimentos que permanecem uma incógnita. Eu sei que pode parecer impróprio, mas não tenho medo de me expor assim. Eu não tenho medo. O medo é uma mentira. Eu só queria que meu corpo me desse uma trégua, pra que a mesma trégua que articulei entre meu coração e a razão pudesse vir à tona. Eu queria paz pra ser igual. Porque somos. Todos somos.

Tuesday, December 27, 2011

Pra esse novo ano

Suprimida pela demanda de resoluções de final de ano, praticamente forçada a fazer aquele balanço geral de como foi que o tal tempo se deu, acabei me dando conta de quanta coisa realmente aconteceu. Não que eu me surpreenda, sempre fui um camaleão. Mas, ultimamente, havia adquirido o hábito de me reinventar a cada novo dia, a deixar o passado pra trás e me abrir a todas as possibilidades que o presente traria.

Há alguns anos, li o “Presente Precioso” e, finalmente, havia percebido o que esse livro queria me dizer. Na época, com apenas seis ou sete anos, era difícil compreender o que já era fato: para uma criança tudo o que não falta é a possibilidade do novo, de estar aberto pra ele, a falta de amarras.

Agora, as convenções insistem em tentar me prender. E, de fato, esse ano começou no mal-bem. Fingia uma felicidade que não existia, pura e simplesmente porque que era o “natural” a ser feito. Para muitos, ter uma escola, um trabalho, um namorado, um círculo de amigos – que, no fundo, não têm nada a ver com você - são sinônimos de felicidade. Pra mim, não. Eu era infeliz, infeliz de verdade. E tudo o que não quero é me prender a esse passado.

Ao longo dos meses, aprendi a me respeitar e respeitar, principalmente, a minha necessidade de não ser convencional. É claro, todo aprendizado tem por consequência mais erros, mais machucados, seus e do outro. Contudo, apenas o simples vislumbre da possibilidade de ser feliz já faz valer a pena.

Porque tudo vale a pena. E é bom repetir isso todo dia ao acordar. Andar com as próprias pernas - suas e únicas -, desviar de regras, tropeçar. De maneira natural, estar aberto todos os dias pra buscar um pouco de luz, um pouco de sorriso em tudo o que se fizer. Hoje, posso dizer que tô tentando, e tentando tanto, resgatar essa coisa da infância. Não há nada mais lindo nesse mundo do que isso.

Coração e mente abertos pra esse novo ano, por favor.

Tuesday, November 22, 2011

Peso Morto

O coração hoje acordou batendo mais devagar. E eu senti uma necessidade insana de escrever. A tela cheia de frases inacabadas, de textos sem fluidez. Eu queria apenas externar o sofrimento, passar pro papel minhas angústias e me sentir um pouco mais leve. Mas eu não conseguia, nem isso mais me era permitido.


O coração hoje acordou batendo mais devagar. O vento soprava forte, o calor era brutal, e eu queria que minha pele se desintegrasse pelas intemperes e o meu vazio se espalhasse no ar. Nem mesmo o vislumbre de produzir, de fazer o que mais amo nessa vida, me aliviava. Me sentia um peso morto, à merce da gravidade, tentando dar mais um passo.


O coração hoje acordou batendo mais devagar. Mas eu sabia que isso não duraria muito. As escolhas são minhas, o movimento contrário taí. Quem sou eu pra me alimentar de sofrimento e deixar que ele crie vida própria?

Friday, November 04, 2011

Sensações

Ainda com delicadeza, buscava com os dedos a nova cicatriz em meu corpo. Parte daquilo que fui e que estava me tornando.


Não acalentava mais sofrimento algum em meu peito, tinha decidido que assim seria. Buscava a realidade, ainda que dura, com uma sensatez nunca antes experimentada. E isso era fruto da história que havia vivido e do novo olhar conquistado. Conquistei de maneira natural, dolorosa até, mas era doce.


Doce como a espuma do mar agitado passando por meus pés descalços na areia molhada. Uma calma, por vezes revolta, querendo respirar tudo o que passava por mim, querendo sentir de maneira completa os milagres cotidianos que assistia.


A vida não poderia estar dando mais certo.


Mentira, é claro que poderia. Sim, poderia! Haviam desejos gritando em minha pele, sedentos por mais. E eu não conseguia silenciá-los, estavam parte de mim agora, rasgando a alma serena, desajeitadamente construída. Mas eu conseguia tudo o que queria, uma força interior, uma teimosia infantil me acompanhava pelo caminho. Os desejos eram, finalmente, distraídos com um pouco de confiança, aceitação e fumaça.


Fome, sede, sono. Vontade de produzir. Tudo era demais aqui. Anseio por liberdade, soltar as amarras, me desapegar. É tudo uma questão de prática, no final das contas, simplificar. Coleciono informações em meu corpo, mas meu coração é um só e a mente pede para que seja simples. Coração e mente, emoção e razão – eles haviam feito as pazes novamente, mas sem a austeridade de outrora.


Não havia espaço para compartilhar, não nesse momento. Já tinha perdido demais tentando ser mil, de tudo e de todos. A vida me chamava para uma aventura deliciosa, as maravilhas saltavam aos meus olhos e não havia tempo para olhar pra trás. Agora, o momento era meu. Simples.


Acariciava novamente minha cicatriz. Perfumes, gostos, toques. Tudo estava ali, bem a minha frente, pedindo para ser experimentado. E porque não?


“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional.” C.D.A.

Tuesday, October 18, 2011

Nada pode me levar pra longe de quem estou.

Quis começar esse texto de maneira branda, mas não foi possível. Eram tantas as palavras que surgiam em minha mente que até fiquei tonta. E eu só queria me desculpar por ter trazido esse furacão pra cá. Desculpar a mim mesma por tirar minha paz, me auto sabotar. Não que eu não esteja acostumada a sempre agir assim, mas dói.

E dói mais dessa vez, não sei se por ter fingido tão bem pra mim mesma que tinha me tornado uma pessoa melhor ou por ter cometido um antigo erro novamente. Esse furacão era parte de mim, eu não podia fugir. Nada pode me levar pra longe de quem estou. Eu precisava que o outro fosse furacão também pra me acompanhar, só que na ânsia de sentir, me afastei. Então, me desculpa.

Eu vejo calma em meus olhos, me olho no espelho todo dia e acredito no que vejo. Mesmo confusa, precipitada, dando passos maiores que as pernas e escondendo meu rosto de medo. É que, às vezes, eu não faço sentido, e prefiro não fazê-lo. E se mesmo o que faz sentido aqui, está longe da realidade de lá, não há mais desespero. Como ter fatos se não há comunicação? Como poder sentir de verdade se esse calar me impede até de quebrar a cara?

Prefiro minha realidade, então. Sofrer por ter feito tudo errado e tentar ter as queridas lágrimas quentes no rosto. Inventar que a culpa foi toda minha e seguir em frente. Ser ininteligível pra me sentir segura ao meu despir assim. Porque eu tenho medo do que poderia ter sido e não foi, de perder um caminho que a vida me mostrou por puro capricho. E, mais do que isso, meu maior medo é perder a leveza do estar para se tornar ser.

Ainda bem que, dessa vez, o sono ainda vem e o sentimento é doce. Eu apenas espero que não esteja colocando as palavras certas na cena errada. E, se estiver, me desculpa.

Thursday, September 15, 2011

as gravuras de goya

eram apenas o branco e a gente
as palavras viajavam mudas entre nós
enquanto repousavam nas paredes,
eu via suas linhas criando vida,
me ensinando o que ninguém antes poderia entender
as escadas se tornaram um labirinto
e eu só queria sair correndo de lá
e pintar.

Wednesday, July 27, 2011

Maturidade

Eu estava pronta para dessa vez não deixar ninguém entrar. Eu estava pronta, e tinha uma certeza tão clara que nada iria acontecer que, finalmente, me sentia livre. Uma sensação de liberdade nunca antes sentida, nunca antes respirada tão profundamente, e se tornou assustadora. Porque a mais triste verdade é que nascemos sozinhos e morremos sozinhos, mas temos a mania de insistir no erro de ter alguém ao nosso lado para acompanhar.

E eu via tudo a minha volta desabar, o meu drama se repetindo em outros corpos, outros rostos. A minha impotência, aliada ao querer bem dessas outras pessoas, causava um maremoto em minha mente. Eu queria explicar para elas como é simples sofrer, quanto é reconfortante se sentir desamparado, como os olhos inchados e as lágrimas quentes escorrendo no rosto são uma boa companhia. Queria fazê-los entender, de uma vez por todas, que o sofrimento é uma benção, que são nesses momentos que se sabe que ainda resta algo de humano aqui, e que, não importa o quanto os anos nos tornaram mais frios, ainda somos capazes de sentir.

Eu não queria deixar ninguém entrar, queria aceitar a solidão a qual fui sentenciada, mas, ao mesmo tempo, tinha uma ânsia por sentir, chorar, viver aquela dor toda de novo. Porque, além da frieza, os anos me trouxeram o pessimismo e o ceticismo de quem não acredita mais no amor, de quem tem certeza que tudo acaba em sofrimento e que os momentos bons do inicio serão esquecidos diante do inevitável.

Eu não queria deixar ninguém entrar, mas eu iria. Existe algo aqui dentro que palavras não são capazes de exprimir, uma esperança insana de que os anos vão passar e que não serão em vão.